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Marrocos e o destino

A ida do maridão para Marrocos trouxe muitos imprevistos, peripécias, aventura e muitas saudades. É aqui que irei tentar "expulsar" os medos, as tristezas, as alegrias e as saudades.

Marrocos e o destino

A ida do maridão para Marrocos trouxe muitos imprevistos, peripécias, aventura e muitas saudades. É aqui que irei tentar "expulsar" os medos, as tristezas, as alegrias e as saudades.

Embora saiba como é natural e inevitável o envelhecimento custa-me ver as mudanças nos meus pais. Até à pouco tempo dizia que eles não eram iguais aos velhotes que cuido e alguns bem mais novos que os meus. Neste momento ainda fazem tudo sozinhos, mas ver cada vez mais a dificuldade de locomoção, a dificuldade de se levantarem e principalmente ver a que o cérebro está em declínio custa-me muito.

A minha mãe sempre foi uma pessoa com uma memoria extraordinária. Contas e datas era com ela. Esta semana telefona-me para a ajudar. Tinha ido ao medico e tinha-lhe recitado um medicamento novo que era para tomar de 12 em horas, tinha-o tomado às 19 horas e não conseguia fazer as contas para saber a que horas tomar o próximo.

Fiquei em choque e a pensar que aquela não era a minha mãe.

Todos os dias lido com velhotes. Todos os dias tiro fraldas, ponho fraldas, dou comida à boca e faço higienes. Todos os dias lido com as confusões e esquecimentos deles.  Nada disto me faz confusão, mas imaginar os meus pais nestas condições não consigo.

Na minha cabeça os meus não são iguais aos outros.

 

Ontem ouvi uma pessoa a falar sobre o caso da idosa que matou à bengalada outra idosa. Dizia a fulana "A culpa é do Lar. As funcionarias não estavam atentas. Deixam os idosos sozinhos e depois acontece isto."

Por mais que eu explicasse à senhora que eram situações que podiam acontecer em qualquer lado, que os idosos não eram todos bonzinhos, que tal como os mais novos também eles tinham acessos de loucura e faziam disparates a mulher batia na mesma tecla "A responsabilidade é do Lar".

Hoje por acaso encontrei esta reportagem e fiquei feliz por ter alguém que compreende e dá valor a esta profissão tão... desprestigiada.

Não são todas as pessoas, mas muitas ainda continuam a achar que esta é uma profissão que só vai quem não arranja outra coisa, que são para pessoas de baixos rendimentos e sem estudos. Ainda oiço (felizmente cada vez menos) dizerem-me " Trabalhas num Lar? Deixa lá qualquer dia arranjas melhor."

Pois, pessoinhas que pensam assim deixem-me explicar que aqui a "Je" ganha mal, mas trabalha com gosto, dedicação e profissionalismo, fui eu que escolhi esta profissão, não me considero menos profissional que um Dr/ª , alguns idosos e familiares tratam-me com desrespeito e arrogância, mas apesar de tudo continuo a ter orgulho e prazer naquilo que faço.

Quanto às agressões entre idosos apesar de serem chocantes, são situações normais de acontecer. São pessoas que tal como os mais novos fazem disparates e têm atitudes condenáveis. 

É chocante acontecer num Lar?

Não acontecem situações desta natureza em casa? Na rua?

Num Lar não há uma funcionária para cada idoso, não estamos ao pé deles 24 horas por dia, tal como em casa as famílias também não estão.

Infelizmente são coisas que podem acontecer em qualquer idade, em qualquer local e com ou sem acompanhamento.

 

 

 

 

 

Alguns dos que aqui passam sabem que a minha profissão é na área da Geriatria. Trabalho num Lar a cuidar de idosos. Também devo referir que adoro aquilo que faço e que continuo a achar, 9 anos depois, que esta profissão é a que me faz feliz. É verdade que tenho dias em que digo "mas porque raio escolhi esta profissão?", mas acho que em todas as profissões existem desses dias.

 Ainda no curso de geriatria e no inicio da minha profissão achava que tudo era melhor do que a morte.

Ultimamente temos ouvido  muito falar sobre o tema eutanásia. Até aqui nos blogs é um tema debatido aqui , aquiaqui , aqui , aqui , aqui , aquiaqui  . É um tema polémico e por isso não é de admirar tantas opiniões. Umas contra  e outras a favor.

 Foram muitos os casos que presenciei e que ajudei (e ajudo) a dar conforto enquanto o coração batia. Sim, nalguns casos apenas o coração bate, pois a fala e os movimentos deixaram de existir. Alguns durante anos. Conforto...às vezes tenho duvidas se este ou aquele utente está confortável, pois muitos não dão um sinal sequer. É verdade que tenho formação sobre os posicionamentos mais adequados, mas ainda assim algumas vezes é impossível não ter duvidas.  Depois há aquelas pessoas em que falam apenas com os olhos. E isso basta para ver o sofrimento em que se encontram. Os olhos em que eu quase posso jurar que muitas vezes dizem " eu quero acabar com o sofrimento".
 Poderia falar de alguns casos familiares em que as pessoas sofreram muito até morrerem, poderia falar de casos conhecidos de pessoas em que estão ou estiveram em estado vegetativo durante anos, mas vou apenas falar da minha experiencia profissional.

. Apesar de todo o conforto e todos os medicamentos para retirar as dores, muitos continuam a sofrer e muitos não têm qualidade de vida. É frustrante para um profissional de saúde (e não só) ver que nada mais podemos fazer. Apenas esperar que o coração deixe de bater e que o sofrimento acabe. Coisa que muitas vezes dura meses e anos.

Quando comecei a trabalhar no Lar já lá estava aquele que viria a ser a pessoa que mais me marcou até hoje e por quem passei a ter um carinho especial. Já se encontrava numa cadeira de rodas e necessitava de todos os cuidados básicos. A rigidez muscular fazia com que o seu corpo ficasse como uma tábua. A fala apesar de ir ficando afectada conseguíamos perceber o que dizia.O mau estar, as dores e a impaciência faziam com que estivesse constantemente a chamar. Era frequente chamara-nos para colocar a perna para a esquerda e logo a seguir para a direita. Muitas vezes eu diz-lhe a brincar " Oh sr. Q. qualquer dia despeço-me só para não o aturar". Ele ria-se e dizia-me " Joaninha não faça isso que você não consegue viver sem mim". Foram anos a piorar em que acabou numa cama a sofrer até ao ultimo suspiro, apesar de todas as tentativas para evitar as dores e todas as tentativas para lhe dar conforto. Muitas vezes ele dizia que queria morrer. Posso dizer que teve qualidade de vida? Não, não posso. 

Um dos últimos casos(muito recente) em que vi o sofrimento durante cerca de um ano, abalou-me e fez-me ter mais uma vez a certeza que a morte muitas vezes é o melhor. Uns dias antes de falecer fiz noite e cuidei dele. Vi o sofrimento estampado nos olhos, a pedir "ajudem-me". Agarrei-lhe na mão e chorei. Vim para casa com a certeza que aquilo não era viver. A família durante aquele ano, esteve sempre presente. Não houve um dia em que não estivessem ali. Não tenho duvidas que também ela sofreu por ver que aquele que amavam sofria, apesar de todas as tentativas para aliviar a dor. 

Perante casos do género em que a pessoa, quando está consciente manifesta o desejo de morrer, o desejo de acabar o sofrimento por não ter qualidade de vida será justo não dar o direito à escolha?

Se algum dia a eutanásia for aprovada que seja bem legislada. Não concordo que se vá ajudar a morrer todos os que assim desejam. Apenas em casos terminais em que nada haverá a fazer e que a pessoa esteja consciente quando toma a decisão 

Se eu conseguia por termo à vida de alguém, mesmo em grande sofrimento? Não, não teria, mas não condeno os médicos que o façam, tal como não condeno os que se recusem a faze-lo. 

Digo sim à liberdade de escolha.

 

Nota: Falei destes dois casos, apenas para dar conta do sofrimento e não como exemplos de que tenham pedido para lhe porem termo à vida se alguma vez estivessem sem qualidade de vida.