Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Marrocos e o destino

A ida do maridão para Marrocos trouxe muitos imprevistos, peripécias, aventura e muitas saudades. É aqui que irei tentar "expulsar" os medos, as tristezas, as alegrias e as saudades.

Marrocos e o destino

A ida do maridão para Marrocos trouxe muitos imprevistos, peripécias, aventura e muitas saudades. É aqui que irei tentar "expulsar" os medos, as tristezas, as alegrias e as saudades.

Alguns dos que aqui passam sabem que a minha profissão é na área da Geriatria. Trabalho num Lar a cuidar de idosos. Também devo referir que adoro aquilo que faço e que continuo a achar, 9 anos depois, que esta profissão é a que me faz feliz. É verdade que tenho dias em que digo "mas porque raio escolhi esta profissão?", mas acho que em todas as profissões existem desses dias.

 Ainda no curso de geriatria e no inicio da minha profissão achava que tudo era melhor do que a morte.

Ultimamente temos ouvido  muito falar sobre o tema eutanásia. Até aqui nos blogs é um tema debatido aqui , aquiaqui , aqui , aqui , aqui , aquiaqui  . É um tema polémico e por isso não é de admirar tantas opiniões. Umas contra  e outras a favor.

 Foram muitos os casos que presenciei e que ajudei (e ajudo) a dar conforto enquanto o coração batia. Sim, nalguns casos apenas o coração bate, pois a fala e os movimentos deixaram de existir. Alguns durante anos. Conforto...às vezes tenho duvidas se este ou aquele utente está confortável, pois muitos não dão um sinal sequer. É verdade que tenho formação sobre os posicionamentos mais adequados, mas ainda assim algumas vezes é impossível não ter duvidas.  Depois há aquelas pessoas em que falam apenas com os olhos. E isso basta para ver o sofrimento em que se encontram. Os olhos em que eu quase posso jurar que muitas vezes dizem " eu quero acabar com o sofrimento".
 Poderia falar de alguns casos familiares em que as pessoas sofreram muito até morrerem, poderia falar de casos conhecidos de pessoas em que estão ou estiveram em estado vegetativo durante anos, mas vou apenas falar da minha experiencia profissional.

. Apesar de todo o conforto e todos os medicamentos para retirar as dores, muitos continuam a sofrer e muitos não têm qualidade de vida. É frustrante para um profissional de saúde (e não só) ver que nada mais podemos fazer. Apenas esperar que o coração deixe de bater e que o sofrimento acabe. Coisa que muitas vezes dura meses e anos.

Quando comecei a trabalhar no Lar já lá estava aquele que viria a ser a pessoa que mais me marcou até hoje e por quem passei a ter um carinho especial. Já se encontrava numa cadeira de rodas e necessitava de todos os cuidados básicos. A rigidez muscular fazia com que o seu corpo ficasse como uma tábua. A fala apesar de ir ficando afectada conseguíamos perceber o que dizia.O mau estar, as dores e a impaciência faziam com que estivesse constantemente a chamar. Era frequente chamara-nos para colocar a perna para a esquerda e logo a seguir para a direita. Muitas vezes eu diz-lhe a brincar " Oh sr. Q. qualquer dia despeço-me só para não o aturar". Ele ria-se e dizia-me " Joaninha não faça isso que você não consegue viver sem mim". Foram anos a piorar em que acabou numa cama a sofrer até ao ultimo suspiro, apesar de todas as tentativas para evitar as dores e todas as tentativas para lhe dar conforto. Muitas vezes ele dizia que queria morrer. Posso dizer que teve qualidade de vida? Não, não posso. 

Um dos últimos casos(muito recente) em que vi o sofrimento durante cerca de um ano, abalou-me e fez-me ter mais uma vez a certeza que a morte muitas vezes é o melhor. Uns dias antes de falecer fiz noite e cuidei dele. Vi o sofrimento estampado nos olhos, a pedir "ajudem-me". Agarrei-lhe na mão e chorei. Vim para casa com a certeza que aquilo não era viver. A família durante aquele ano, esteve sempre presente. Não houve um dia em que não estivessem ali. Não tenho duvidas que também ela sofreu por ver que aquele que amavam sofria, apesar de todas as tentativas para aliviar a dor. 

Perante casos do género em que a pessoa, quando está consciente manifesta o desejo de morrer, o desejo de acabar o sofrimento por não ter qualidade de vida será justo não dar o direito à escolha?

Se algum dia a eutanásia for aprovada que seja bem legislada. Não concordo que se vá ajudar a morrer todos os que assim desejam. Apenas em casos terminais em que nada haverá a fazer e que a pessoa esteja consciente quando toma a decisão 

Se eu conseguia por termo à vida de alguém, mesmo em grande sofrimento? Não, não teria, mas não condeno os médicos que o façam, tal como não condeno os que se recusem a faze-lo. 

Digo sim à liberdade de escolha.

 

Nota: Falei destes dois casos, apenas para dar conta do sofrimento e não como exemplos de que tenham pedido para lhe porem termo à vida se alguma vez estivessem sem qualidade de vida. 

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.